Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2022
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Deus não tem ideologia nem regime

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O selecionador nacional, o Senhor Fernando Santos, já várias vezes testemunhou publicamente a sua fé católica, que não troca por nada deste mundo, fé que vive de forma exemplar, com vida de oração e participação na vida da Igreja.

O Senhor André Ventura, que foi seminarista, disse ultimamente, num congresso, que é católico, que não tem medo de falar de Deus, e que anda com um terço no bolso. Tem todo o direito de o fazer, não é correto é que meta Deus numa ideologia e na cartilha de um partido político, ainda para mais socorrendo-se de um lema que já teve o seu tempo e fez parte de um regime, cuja existência e atividade geram muita divisão na sociedade portuguesa.

De que Deus fala o Chega? Do Deus católico? Então deixemos a Igreja falar de Deus. Não é competência de um partido político, e muito menos quando temos um estado laico, com separação entre o estado e a religião. Deus, por sua natureza, está muito acima de nós e está muito para lá do que possamos pensar dele, jamais quererá estar numa atividade onde uns estão contra os outros e há rivalidade e exclusão. Deus tem um projeto para todos e não quer fazer parte do projeto de ninguém. Jamais deve ser instrumentalizado para as nossas guerrilhas políticas, usado para conquistar votos, instaurar regimes ou servir lutas de poder. Tudo o que Jesus Cristo recusou profundamente.

Não me cabe fazer considerações sobre o Chega, que muitos acusam de ser extremista, fascista, radical, populista. Não sei. Como partido político merece o mesmo respeito que os outros. Mas, segundo algumas propostas que apresenta, é inaceitável que Deus faça parte do ideário de um partido que defende soluções drásticas, profundamente atentatórias para a dignidade humana, que tem uma visão maniqueísta das pessoas, que parece promover a discriminação de povos e culturas. O Deus de Jesus Cristo jamais aceitaria fazer parte deste ideário e é um insolente atrevimento meter Deus nesta errância política e social.

Deixemos Deus em paz e não metamos Deus onde Deus não quer estar metido, correndo-se o sério risco de o estarmos a invocar em vão. Os políticos podem ter religião, mas a religião não deve ter política.

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